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quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Efeméride

O texto que se segue não foi escrito por Maléfico nem por Mafarrico, mas podia ter sido pois ao longo das suas palavras e frases sente-se o estilo e pujança desta dupla. Apraz-me, portanto, verificar que vamos somando seguidores que se lançam no mundo da literatura almejando tornar-se génios do nosso calibre. Ouçamos portanto, com atenção, o relato que se segue:

"É com excessiva repugnância que vou relatar a pavorosa cena que se desenrolou e que nenhum acontecimento posterior pôde apagar-me da memória, onde ficou gravada com os mais minuciosos pormenores, e cuja cruel recordação amargará todos os futuros momentos da minha existência. [...] O único meio que estava à nossa disposição para a terrível lotaria, na qual cada um de nós tinha o risco a correr, era o da palha mais curta. Pequenas estilhas de madeira serviam para o fim proposto, e foi convencionado que seria eu a apresentá-las. Afastei-me para um canto no navio, enquanto os meus pobres companheiros ficavam no extremo oposto, de costas para mim. O momento mais cruel deste drama terrível, o mais angustiante, foi quando procurava arranjar as várias parcelas. [...] Pus-me a pensar em todos os ardis imagináveis para fazer batota no jogo, de modo a levar um dos meus pobres companheiros de infortúnio a tirar o pedaço mais pequeno, pois fora convencionado que o que tirasse a mais curta das quatro lascas, morreria para conservação dos outros. Antes que alguém me condene por esta aparente infâmia, deve colocar-se numa situação precisamente igual à minha!
Como já não era possível adiar por mais tempo, avancei, com o coração a saltar-me do peito, para o castelo da proa, onde os meus companheiros aguardavam. Apresentei a mão fechada com as lascas e Peters tirou uma delas imediatamente. Estava livre! O seu pedaço, pelo menos não era o mais curto. Havia agora mais uma probabilidade contra mim. Reuni todas as energias e estendi o pedaço a Augusto, que tirou rapidamente o seu e ficou igualmente livre. Nesta altura as probabilidades de viver ou morrer eram exactamente iguais e, então, apoderou-se do meu espirito toda a ferocidade do tigre, sentindo contra Parker, meu semelhante, meu pobre companheiro, o mais intenso, o mais diabólico ódio. Este sentimento durou pouco tempo, e, por fim, com um arrepio convulsivo e os olhos fechado, estendi-lhe as restantes duas lascas. Mais de cinco minutos passaram, antes de conseguir resolver-se a tirar a sua e, durante esse período de indecisão (que me pareceu um século), capaz de partir o coração ao mais sensível, não abri os olhos um instante que fosse. Finalmente, um dos pedaços foi-me vivamente arrancado da mão. A sorte estava jogada, mas não sabia se era a favor ou contra mim. Ninguém falava, e não ousava quebrar a minha incerteza olhando o pedaço que me restava, até que Peters me agarrou na mão, esforçando-me por olhar para ela. Não foi necessário, pois bastou-me olhar para o rosto de Parker para ver que estava salvo, e que era ele a vítima condenada. Respirei convulsivamente e caí desmaiado na coberta.
Voltei a mim a tempo de ver a consumação da tragédia e assistir à morte daquele que, como autor da proposta, havia sido o seu próprio carrasco. Parker não ofereceu a mínima resistência e caiu morto, atingido por uma punhalada nas costas dada por Peters. Não me vou deter a falar do terrível festim que imediatamente se seguiu: são coisas que poderemos imaginar, pois as palavras não têm poder suficiente para impressionar o espírito com o tremendo horror da realidade. Apenas direi que após termos aplacado a raivosa sede que nos destroçava com o sangue da vítima, e cortado, de comum acordo, as mãos, os pés e a cabeça, que atirámos ao mar com as entranhas, devorámos o resto do corpo, pedaço a pedaço, durante esses quatro dias para sempre memoráveis que se seguiram: 17,18,19 e 20 de Julho"
E.A. Poe - Aventuras de Arthur Gordon Pym
E.A.Poe escreve de acordo com a antiga ortografia

E.A. Poe tem muito jeito para a escrita, mas pouco para o suspense, pois uma vez que apresenta o narrador na primeira pessoa, e se nota rapidamente que a obra não tem um fim abrupto, então aquela cena do 50-50 de probabilidades não engana ninguém, por outro lado refere que atiraram as mãos, os pés e a cabeça ao mar, deglutindo o resto, ora toda a gente sabe que são precisamente estes os pedaços que mais nutrientes acumulam ( e eles bem precisavam) e que devem ser aproveitados para uma dieta saudável o que torna o texto bastante anti-pedagógico. Outros pontos existem merecedores de apontamentos negativos, que por certo o meu colega Mafarrico apontará no local habitual, ali em baixo.




quinta-feira, 3 de março de 2011

Doutor Fausto de Thomas Mann

Maléfico tomou em mãos o desafio de ler a obra Doutor Fausto escrita por Thomas Mann.
A sinopse desta obra é por todos conhecida, um compositor alemão celebra um pacto com o nosso Maioral (o Maligno, como ele lhe chama), à imagem do que fez o Fausto original, para que tenha tempo de vida e inspiração suficiente para terminar as obras-primas que tem em mente. Isto, durante o atribulado momentum mundial, em que a alemanha nazi toma forma e se levanta contra o resto do mundo. Chega e sobra para 700 páginas, dirão os mais optimistas, e na verdade, dito assim parece o melhor livro do mundo - música, o Diabo, violência a atrocidades. Tudo coisas que nos dizem muito.

Levei o meu tempo a ler e assimilar tudo o que está escrito nessas páginas, e devo afirmar categoricamente: Que seeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeca, chato, chato, chato. Bocejo gigantesco atrás de bocejo gigantesco, é só voltas e voltas, não se percebe onde é que o homem quer chegar com tanta conversa, personagens que não interessam a ninguém, páginas atrás de páginas a divagar acerca de teoria musical e sabe-se lá mais o quê. Só dá vontade de dizer "Tómas, man? What were you thinking?". Mas lá continuei lendo, pressentindo que o final seria recompensador, senti que no fim tudo iria encaixar e lançar uma luz sobre estes meses de leitura. Tal não aconteceu.

Só me resta deixar umas palavras de conselho, se quiserdes ler este trabalho. Passo a enuncia-lo: Lede o primeiro parágrafo deste mesmo post, depois abride o livro e saltai algumas páginas para o capítulo 25, esqueçam o que está escrito até lá (à confiança), este capítulo é onde se faz a simpática aparição de nosso Mestre. Depois saltem as próximas 300 páginas até ao final, leiam o último capitulo, o que não explicar lá é porque não interessa. Falta o epilogo, saltem isso também e leiam a nota final do autor, que só tem cinco linhas e assim têm o prazer de virar a última página. Está feito.

terça-feira, 11 de maio de 2010

As sombras sobre Innsmouth ou a sardinha assada faz bem ao colesterol

O que faz perder o autocarro! É uma chatice. Que o diga Robert Olmstead, o narrador da história de Lovecraft que perdeu o 78 e teve de pernoitar na cidade com cheiro a peixe, Innsmouth.

É que os habitantes dessa cidade eram humanos híbridos, meio pessoa meio peixe, e tentaram entrar-lhe pelo quarto adentro a meio da noite, sabe-se lá para quê, o que o obrigou a fugir valentemente pela janela.

Durante a noite, enquanto escondido e em fuga, consegue ver algumas das bestas com guelras à luz das lanternas e desmaia. Depois acorda e foge. Aparentemente os homens-peixe não eram muito bons no encalço dos fugitivos que até desmaiados escapavam.

Mais tarde, julgando-se em segurança e atormentado por pesadelos piscatórios, descobre que afinal tem um antepassado em comum com a raça-peixe e vai-se transformando num deles, planeia então um regresso a Innsmouth para abraçar a cultura dessas bestas desumanas.

Uma bela história escrita por H.P. Lovecraft, aqui resumida por Maléfico e que já tinha sido musicada pelas fadas do heavy metal :

segunda-feira, 1 de março de 2010

O assassino em série, esse animal (2/3)

Psicopata americano.

Há duas maneiras de estudar o psicopata americano, lendo o livro ou visualizando o filme que adaptou o livro.

O filme:
O filme é um bom filme. Os humanos que o vêm ficam com a excelente sensação de terem visto uma película eximiamente realizada, com excelentes diálogos e planos, um humor negro de primeira ordem e boas interpretações. É esta uma boa maneira de se estudar o negro ser que é o assassino em série? Não. O personagem do filme nunca parece ser nada mais do que um simples personagem de ficção, não enoja nem assusta ninguém, antes pelo contrário, até me atrevo a dizer que é um filme que dispõem bem.

O livro:
O livro enoja e assusta. É um desenrolar de actos bárbaros e descerebrados, executados com uma frieza cruel. Bret Easton Ellis deve ser ele próprio uma pessoa bem lixada da cabeça para ter tido tantas e tão brutais ideias. Se realizassem um filme fiel ao livro, podiam ir os senhores do manicómio com as camisas de força e levar quem tivesse ficado até ao fim, à confiança.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Hora do filme

É chagada a hora de visualizar um pequeno filme nesta sala a que chamamos ergástulo horrendo.

Penso que agradará a todos, pese embora saibamos a história de cor e salteado.



TRUE! nervous, very, very dreadfully nervous I had been and am; but why WILL you say that I am mad? The disease had sharpened my senses, not destroyed, not dulled them. Above all was the sense of hearing acute. I heard all things in the heaven and in the earth. I heard many things in hell. How then am I mad? Hearken! and observe how healthily, how calmly, I can tell you the whole story.


Um génio, este Edgar. Lembro-me de lhe dizer: "Vais longe, ó Edgar!".

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

ref. literária - o pequeno Oskar

caros

aqui há atrasado houve um tema muito falado nas esferas masmorrentas, foi até alvo de um rel. veridíco escrevinhado pelo nosso colega, o excelentissimo mafarrico, e deu azo a muita tertúlia, discussóes e ,atrevo-me a proferir, muitos bocejos. O tema em questão era o baptismo católico dos petizes que ainda não sabem muito bem o que lhes está a acontecer.

Devem recordar-se.

Estando a ler eu um livro que se deu ao trabalho de versar um pouco sobre este assunto, e achando que o que estava escrito nessas páginas era de importância relativa para as nossas conversas já esquecidas, decidi copipastar o excerto em questão para que possais julgar novamente o assunto, agora com o conhecimento de uma experiência relatada na primeira pessoa.

Para dar alguma luz ao excerto que se segue, devo dizer que o narrador é um pequeno que desde o seu nascimento tem o discernimento e a inteligência de um vulgar adulto, e se a sua memória desses tempos é monumental só é ultrapassada pela sua vontade de partir vidro, vicio que ganhou desde muito tenra idade.

(...) insistiram em pôr-me o nome Oskar, e o Jan, na qualidade de padrinho, confirmou-o junto ao pórtico. Depois o reverendo soprou-me três vezes na testa para afugentar Satanás, foi feito o sinal da cruz, colocou-me a mão por cima, espalhou sal e voltou a proferir uns ditos contra Satanás. (...) Depois, o reverendo achou por bem dizer uma vez mais vade retro Satanas, e achava que me estava a abrir os sentidos ao tocar no nariz e nos ouvidos, quando eu tinha estado sempre mais do que desperto. Depois quis voltar a ouvir alto e bom som, e por isso perguntou : "Renuncias a Satanás? A todas as suas obras?"
Antes mesmo de eu poder abanar a cabeça - porque não tinha a minima intenção de renunciar - , Jan disse três vezes por mim: "Sim, renuncio."
O reverendo ungiu-me o peito e entre os ombros, sem que por isso eu me tivesse incompatibilizado com Satanás. (...) e quando Jan me levou até ao pórtico da igreja (...) perguntei ao Satanás dentro de mim : "Correu tudo bem?"
Satanás saltou e murmurou :"Viste as janelas da igreja, Oskar? Tudo de vidro, tudo de vidro!"


O livro é o, sobejamente conhecido, "O Tambor de Lata", do germânico Gunter Grass. Penso que já o tereis lido porventura duas ou três vezes.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Satanás, o Diabo e outros principes - um esclarecimento


Vossas Excelências!

Desta feita, dirijo-me a todos os que com certeza irão ler estas linhas, com a excepção óbvia de Vós.
A temática sobre a qual me predisponho a versar, veio-me à ideia aquando da leitura de uma obra literária assaz interessante, e que proponho seja considerada de leitura obrigatória para todos, mais uma vez sendo vós a única excepção para a regra.

O referido livro (assim se chama este conjunto de paginas) tem a sugestiva denominação “A viagem dos sete demónios” e apenas tem como autor o argentino Manuel Mujica Lainez, porque não me apercebi atempadamente da dita edição e não me foi possível roubar a sua propriedade intelectual. Não fosse este infortúnio e seria meu o nome que assinaria sob essas tão preciosas linhas.

Neste compêndio de palavras, é relatada em forma de conto, uma empreitada dos sete príncipes demoníacos que tutelam os sete pecados mortais, e que a mando do Diabo, rei supremo do Inferno são enviados em obscura e subversiva missão à Terra.
São muitas e variadíssimas as passagens que nos são familiares, desde as mais variadas descrições dos membros do staff infernal até algumas referências à nossa Masmorra. A exemplo disso temos o parágrafo inaugural, colocado logo no inicio do livro e no qual se pode ler:

Na realidade o aposento era diabólico porque desafiava e enganava as leis da perspectiva lógica. A verdade é que lhe faltava o final, como se fosse multiplicado por incontáveis espelhos afrontados, apesar de nele não haver um único espelho. (…) no exterior cresciam gemidos, prantos e risos ferozes (…)

Está-se mesmo a ver a que hediondo local se refere o autor.

Mas a ideia que me assomou, não foi a de fazer uma critica avassaladora a este texto mas sim a de fazer um esclarecimento público que julgo pertinente.
Ao longo destes séculos de malvadezes e perfídias, é com frequência que se me deparo com vulgares ignorantes, simpatizantes ou não da nossa causa, que se referem ao líder supremo infernal pelos mais variadíssimos nomes e títulos!
Como dizia, é desconcertantemente habitual escutar menções confusas a Satanás, Lúcifer, ao Diabo entre outros, como se todos se referissem a um e apenas uma entidade demoníaca.
Ora tal é uma irritante demonstração da mais profunda ignorância.
Se este texto se vos apresenta como entediante, por o seu conteúdo ser demasiado evidente para as vossas iluminadas mentes, caros colegas passai à frente e deixai que apenas os pobres de espírito prossigam a sua interessante leitura.

Passo então a dissertar um pouco de sabia cultura sobre a nomenclatura infernal:
O Diabo é o príncipe de mundo! Ele é o rei supremo do Inferno que controla desde o seu alvo trono estrategicamente colocado no Pandemonium, seu palácio imperial!

Seguem-se as castas demoníacas, nas mais altas das quais nos encontramos nós como é bom de ver.
Mas acima de nós há ainda uma elite de príncipes demoníacos, que reportam directamente ao líder supremo e pelos quais foi distribuído a hegemonia dos pecados capitais de Tomas Aquino, a saber:

Satanás – ira;
Lúcifer – soberba;
Mamon – avareza;
Asmodeu – luxúria;
Belzebu – gula;
Leviatã - inveja;
Belfegor – preguiça;

Mas mesmo entre os eleitos d’Ele há diferenciação, pois nada é justo no Inferno e nunca se ouviu falar em tal coisa como a equidade e princípios de igualdade. Assim e usando as palavras do Mujica:
Postando-se à direita os de nobreza mais elevada, que são os mencionados no Antigo Testamento: Satanás, Leviatã e Asmodeu; à esquerda, o citado no Novo, que é Belzebu, e um pouco atrás os restantes: Lúcifer, Mamon e Belfegor.
(Para os afortunados iletrados desconhecedores dos referidos textos, o Antigo Testamento é como o Novo Testamento mas muito mais antigo!)

Mas se pensais, que esta minha preocupação com as promíscuas confusões de denominações não passa de uma cisma minha e de uma desculpa, algo fraca para escrever este trecho, permitam-me que partilhe convosco mais algumas palavras que o Lainez incluiu nesta sua narrativa:
“(…) além disso, Satanás e Lúcifer envolveram-se em intrigas literárias para que o mundo creia que um dos dois usa a coroa dos Infernos, relegando o meu nome (o nome de Diabo) para a condição impessoal de nome comum e colectivo
Sendo esta uma transcrição em discurso directo do Diabo, ele próprio, ganha esta minha missiva uma pertinência, que apesar de já a ter carecia de provas concretas e inabaláveis.

É portanto o nosso patrono Satanás, Senhor da Ira, um dos príncipes do Inferno mais proeminentes, como constatamos na citação acima.
Também conhecido pelas suas asas de abutre, pela cota de malha vermelha que exibe como se fosse um imenso crustáceo e pelos olhos cruéis que refulgem no conjunto de cabelos vermelhos que lhe cobrem a cara e as bochechas, sendo estas as poucas características físicas que lhe são conhecidas, dado serem poucos os que o vêem e vivem para contar, ou que notam algo de especial.
Como montada, seu meio de locomoção preferencial, usa uma gigantesca serpente azul com a qual é visto a cruzar os espaços aéreos entre os fogos infernais e em surtidas nocturnas para copos e borga.

A ligação à sua Masmorra Infernal faz-se obviamente pela deixa da Ira, que se encontra profunda e inebriantemente imiscuída nos sons metálicos que daqui emanam, e da qual é veículo de disseminação preferencial.

Dependendo da receptividade que esta interessante e sagaz iniciativa possa encontrar em V/Ex.as poderei no futuro discorrer um pouco sobre os outros seis príncipes, usando como fonte a obra do Manuel e a minha capacidade inventiva, que sei que muito prezais.

Sem mais me despeço,

\m/

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Um diabo a precisar de umas lições

Estava passando os olhos pelos escritos do nosso amigo Vlad Nabo quando li, incorporado no romance, este desabafo de um colega inexperiente. Logo descortinei um relato sincero de um pobre diabo que, ao confessar a sua incapapacidade para certas tarefas, procurava conselhos de Diabos a sério como nós. O estilo da missiva, nota-se, é fortemente influenciado pelo da Masmorra, e tenho a certeza que quando foi escrita e incorporada no livro (editado há apenas 50 anos atrás), se destinava tão somente a captar a nossa atenção e aceitar humildemente o que pudessemos dizer sobre o assunto.

Leiam o que se segue e escrevam algumas palavras ao nosso pouco corajoso amigo.

"O cenário era, de facto, perfeito para um assassínio rápido e borbulhante, contando ainda com a vantagem de uma subtileza: o homem da lei e o homem da água estavam suficientemente perto para testemunhar um acidente e suficientemente longe para observar um crime. Estavam suficientemente perto para ouvir um angustiado banhista debater-se na água e gritar e pedir que alguém o ajudasse a salvar a mulher que se afogava; mas estavam muito longe para distinguir (se por acaso olhassem antes de tempo) que o tudo menos angustiado banhista acabava de puxar a mulher para debaixo de água. Ainda não chegara a essa fase; pretendo apenas dar uma ideia da facilidade do facto, da excelência do cenário! Charlotte nadava com aplicada falta de jeito (era uma sereia muito mediocre), mas não sem um certo prazer solene (não tinha o seu tritão ao lado?), e, enquanto a olhava com a crua lucidez de uma futura recordação (compreendem o que quero dizer: tentando ver as coisas como nos lembraremos depois de as ter visto), [...] enquanto observava tudo isso compreendi que me bastava ficar para trás, respirar fundo, agarrar-lhe num tornozelo e mergulhar rapidamente com o meu cadáver cativo. Digo cadáver porque a surpresa, o pânico e a inexperiência levá-la-iam a engolir, logo, um letal galão de lago, enquanto eu poderia aguentar pelo menos um minuto inteiro, de olhos abertos debaixo de água.[...] Eu poderia vir à superficie tomar fôlego, sem deixar de a manter debaixo de água, e mergulhar de novo, as vezes que fossem necessárias, e só quando o pano descesse definitivamente sobre ela me permitiria gritar por socorro. E quando uns vinte minutos decorridos, os dois títeres, a crescer gradualmente, aparecessem num barco a remos, meio pintado de novo, a pobre Mrs. Humbert Humbert, vitima de cãibras, ou oclusão coronária, ou ambas as coisas, estaria a fazer o pino no lodo fervilhante e cor de tinta, uns nove metros abaixo da sorridente superfície do lago Hourglass.
Simples, não era? Mas que querem, amigos? Não fui capaz de o fazer!
Ela nadava a meu lado, foca confiante e desajeitada, e toda a lógica da paixão gritava aos meus ouvidos: "É agora o momento!" Mas, camaradas, não fui capaz! Virei para terra, em silêncio, e, gravemente, obediente, ela virou também, e o Inferno continuou a gritar-me o seu conselho, e eu, continuei sem coragem para afogar a pobre, escorregadia e corpulenta criatura."

domingo, 22 de fevereiro de 2009

ref. literária nr 23,7

mafarrico,

reli por estes dias um livro editado quando eramos petizes, se bem se lembra, e que tem na sua intrinseca filosofia tudo a ver com a masmorra e o ambiente em que nos movimentamos.

Este trabalho literário dá pelo nome de "O Estranho Caso Do Dr. Jekyll E De Mr. Hyde" escrito pelo colega Robert Louis Stevenson (Roberto Luis Estêves) e publicado pela primeira vez em 1886.

É um livro que conta as peripécias de Dr. Jekyll um médico abastado, honrado e bondoso que nas suas experiências cientificas descobre um preparado que ao ser bebido traz à superficie todos os sentimentos reprimidos que o simpático e alegre doutor tem nas suas profundezas psicológicas. É assim que aparece o nosso colega Mr. Hyde, a espalhar malvadezas por onde passa, um crápula, facínora que mal se vê nas ruas trata de ser o mais antipático e chato possivel.

O busilis da questão é que a mencionada poção transformatória, transforma também o aspecto fisico o que obriga o médicozito a ter de jogar ao gato e ao rato com os seus conhecidos para não ser descoberto como Hyde tornando assim a história mais interessante. Como acontece com todos aqueles que são arrastados para o nosso lado, o médico rapidamente ganha o gostinho de se transformar em Hyde e sair todas as noites para a borga o que descontrola um pouco os acontecimentos até que a parte Hyde se torna mais forte e as coisas dão para o torto. Um final feliz.

Aqui está um belo episódio à Hyde :
"(...) o sr. idoso pedia-lhe que lhe indicasse alguma rua;(...)[Hyde] não respondeu uma palavra ao velho e escutava-o com um modo de impâciencia mal contida. De repente, teve um grande ataque de cólera, dava patadas furiosas no chão e brandia a bengala com gestos de louco; o velho recuou um pouco, como quem estava surpreendido e magoado por um tal acolhimento; num instante depois, Hyde, mais irado ainda, abatia-o à bengalada; não contente com a proeza, pisava a pés o pobre velho e desferia pancada sobre pancada; ouviam-se os ossos estalar: por fim rolou para a valeta(...) a vitima estava estendida no chão com mutilações abominaveis, uma confusa massa de sangue, de farrapos e de fragmentos de miolos; a bengala que devia ser de uma madeira extraordinariamente resistente, estava, no entanto quebrada pelo meio (...)".

É esta a beleza deste livro, simpáticos episódios como este revelam-nos um problema filosofico da humanidade, que pode ser de grande utilidade para nós. Podemos ter certeza que por mais amor e bondade que habite no coração de um homem, tem sempre de haver um pouco de ódio e violência a coabitar e à espera de ganhar força e poder. O que é um pensamento reconfortante e de grande esperança para o futuro.

Por fim, e como já tenho referido noutras referências devo de dizer que o nome do livro está muito bem esgalhado e há edições com capas bem fixes, pelo que ficará sempre bem em qualquer estante da masmorra.



P.S.
O episódio da morte de Stevenson é interessante se conhecido tendo em mente o livro que o próprio tinha escrito uns anos antes. O homem tinha acabado de ir à adega buscar uma garrafa do seu vinho favorito e estava a abri-la quando gritou para a mulher "Que se passa comigo? o meu rosto modificou-se?". E pumba caiu falecido prontinho a vir engrossar os nossos exércitos.

M.P.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Satã é amigo

Já há muito que não se vê uma ref. literária por aqui, pelo que decidi tentar ainda manter a aparência para uma masmorra culta e escrevinhar umas palavras sobre mais um livro altamente referenciado pelos circulos inferno-literários.

Este livro não tem tradução para o português e será muito dificilmente adquirivel nas lojas pelo que esta referência tem o lado positivo de se por acaso se der que alguem fique com uma real vontade de o ler, não o poder fazer assim tão facilmente.

E vontade de o ler não faltará depois de eu revelar que o livro em questão relata uma história de sexo, drogas, homicidio e satanismo passados nos saudosos anos sessenta. Outros excessos são relatados em promenor, mas não revelarei mais para não estragar a leitura que quase de certeza não efectuará e porque também já não me lembro de praticamente nada. Mas concerteza é um livro com um nome apelativo e que ficará bem na estante pelo que é altamente recomendável.

Não perca portanto, o livro Satan Wants Me de Robert Irwin.



M.P.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Tríptico

mafarrico,

o historial infernal de referências triplas é já algo muito antigo, por de certo lhe lembrará automáticamente esse segmento televisivo que visionavamos enquanto petizes chamado 'Triple Thrash Treat'.

Será verdade que o que vou escrever aqui tenha mais afinidades com outro segmento visionado na infância de seu nome "E aqui? O que é que não está bem aqui?" do que com o TTP, mas peço-lhe que tenha ambos em mente ao ler o que se segue.

É que vou fazer uma tripla referencia cinematográfica , literária e musical. Algo inédito, mas que quis o destino e a força temporal que fizesse sentido aqui e agora. Acompanhe-me portanto.

Em 1962, Anthony Burgess escreveu um romance fenomenal intitulado "A Clockwork Orange" e do qual sou ferrenho admirador, este escrito de qualidade superior conta a historia de Alex, um simpatico rapaz que com os seus amigos vivia um estilo de vida bastante saudável para os nossos standars masmorrificos, cujas aventuras com drogas , destruição, violações, roubos e delinquência nos transportava para uma reflexão sobre a moral e a dicotomia bem/mal. O nosso amigo e afável Alex, será resgatado, e "curado", o que levanta outras questões interessantes relacionadas com o livre arbítrio e outros conceitos inerentes ao ser humano, e também a nós próprios.

Um livro brilhante e que pode muito bem ser considerado um dos melhores escritos de todos os tempos.

Nove anos volvidos, Stanley Kubrick realizou um filme baseado neste livro a que chamou "A Clockwork Orange" e do qual sou ferrenho admirador. Um filme de extrema qualidade, fiel ao livro até na linguagem utilizada pelos confusos e violentos teenagers, e que trouxe para o grande ecrã os episódios relatados no livro. É um filme obrigatório. Tenho de acrescentar que quem diz mal dele é obviamente um descerebrado que merece a tortura de rever o "Música No Coração" três vezes por dia até ao fim dos seus dias.

Um filme brilhante e que pode muito bem ser considerado um dos melhores da humanidade.

Isto tudo para chegarmos a 2009 e vermos a edição do novo disco dos Sepultura. É isso ai meu irmão, o Sepultura vai editar um disco totalmente baseado na história acima descrita. O disco dito conceptual e entitulado "A-Lex" sai dia 26 de Janeiro e promete ficar bem longe da qualidade universal dos trabalhos referidos em cima. Mas que não deixa de ser uma visão da história que interessa ouvir e da qual se espera alguma qualidade sonora.

Sepultura esses que, tal e qual,os génios em cima mencionados têm nesta altura uma carreira morta, Burgess e Kubrick morreram efectivamente o que os impede de realizar novos trabalhos, enquanto os Sepultura estão vivos mas não editam nada acima de mediocre desde 1993.

Fica assim feita a primeira referência tripla da masmorra, e como ilustração deixo uma cena do filme de Kubrick, cena esta fiel à passagem do livro e que sem dúvida terá lugar numa faixa bem poderosa do novo A-Lex. É uma das minhas cenas cinematográficas preferidas de todas as cenas cinematográficas que já tive a oportunidade de ver.



assim me despeço de todos os meus droogies infernais
M.P.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

relatos da vida de um Demónio


Prezados parceiros,

Avançados que estamos em plena Silly Season, eis chegado o momento certo para um breve interlúdio para que possamos desanuviar um pouco da grandeza e gravidade dos temas recentemente expostos.
Decidi assim fazer uma breve referência literária a uma obra de um colega nosso: Norman Mailer, que se findou para este mundo há coisa de 8 meses.

A obra que terá a honra de aqui ser mencionada responde pelo nome de “The castle in the forest” e tem uma particularidade interessante: o que um vulgar leitor consideraria uma obra de ficção é para nós uma espécie de relatório (um pouco romanceado) duma missão de vulto levada a cabo por um ilustre colega.

Trata-se da narração, na primeira pessoa, do trabalho de um Demónio a que Satanás incumbiu a árdua missão de acompanhar Adolf Hitler desde a sua génese e durante a infância, de forma a assegurar que fossem atingidos os resultados previamente estipulados. O colega, de nome Dieter, acaba por se revelar a paginas tantas e vai-se assumindo em trechos como os que se seguem:

Sim, sou um intrumento. Sou um agente do Demónio. E este instrumento de confiança acabou de cometer um acto de traição: não é admissível revelarmos quem somos” (ainda estava um pouco confuso nesta fase)

Vou tentar dar, então, uma pequena explicação sobre estes dois Reinos, o Divino e o Satânico. (…) É desnecessário acrescentar que nós os demónios somos confrontados diariamente com uma hoste formidável de anjos (decidimos chamar-lhes bastões).

Embora essas forças rivais não sejam estranhas a qualquer pessoa que tenha lido Paraíso Perdido, observaria que muitos de nós somos muito versados nos clássicos da literatura. Não posso falar pelos anjos, mas os demónios são obrigados a devotarem-se à boa escrita. Milton, por conseguinte, está bem cotado nos nossos arcanos dos poucos artistas literários que não temos de considerar como sendo inexoravelmente de segunda categoria.

(…) os Demónios ao serviço do Maestro já não vão para a guerra em falange contra os anjos. Em vez disso, estamos artificiosamente instalados por esta altura em todos os recantos da existência humana.

Há ainda uma passagem demasiado extensa para que a transcreva aqui, onde o nosso colega relata os eventos ocorridos a 18 de Maio de 1846 num descampado nos arredores de Moscovo aquando da coroação do Czar Nicolau II.
Aí, seguindo um plano detalhado pelo próprio Maestro, um conjunto de demónios leva ao motim de um conjunto de esfarrapados camponeses que resulta na prevista morte de milhares de pessoas que haviam acorrido ao local para participar nas festividades, e assim manchar de vermelho e desgraça uma cerimónia patrocinada e protegida pelos referidos bastões.

Enfim, uma boa leitura de fim-de-semana (aprox 500 paginas) onde podemos atestar das dificuldades de missões como as nossas.
Voltemos então à Silly Season, agora que está completo este périplo literario.
Demoniosamente me despeço,
\m/

domingo, 6 de julho de 2008

post 101

mafarrico,

If you want a picture of the future, imagine a boot stamping on a human face … for ever.

Esta bela noção de um futuro melhor é-nos deixada no livro de Eric Arthur Blair, 1984. Um belo livro que nos trouxe ideias tão marcantes como o Big Brother, os dois minutos de ódio ou a imagem que pessoalmente mais me agrada e que é a do quarto 101.

O quarto 101, no romance, é uma câmara de tortura no ministério do amor, em que o visado é sujeito à sua pior fobia. No estado totalitário relatado na obra literária, tudo é conhecido acerca de todos, pelo que até os medos mais íntimos de cada um estão
compilados nos registos da polícia. Assim, o individuo prevaricador, ao ser presente ao seu torturador seria introduzido na sala 101, onde teria de enfrentar qualquer que fosse aquilo que mais teme. Uma visão simpática, se se tiver o trabalho de torturador oficial do ministério.

Por exemplo, se eu vivesse nessa sociedade imaginária futurista, e fosse apanhado em falta (muita probabilidade de cometer faltas, mas pouca de ser apanhado). Ao sentir a porta fechar-se atrás de mim que encontraria?

Estou a imaginar, um quarto pesadamente mobilado, mobiliário de madeira, a última ceia retratada num quadro na parede, um crucifixo na parede oposta, o rádio sintonizado na renascença (perpétuamente hora do terço). Nisto entrariam duas ou três religiosas de avançada idade, que me sentariam na mesa com o lanche pronto, bolachinhas e leite com groselha, a sua companhia seria incessante em me relatar passagens da bíblia ou novo testamento, fábulas!!! contar-me-iam fábulas sem parar, sempre a perguntar se estava preparado e sabia os horários da catequese ........... NÃAAAO!! medo! não consigo continuar.

(respirar fundo)

mafarrico, consegue fazer tal exercício de se imaginar no seu quarto 101?

A música de fundo para este post é: Carcass - Room 101

M.P.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Poucos mas bons (Nós)

Que ser um demónio é laborioso e cansativo, é coisa que pouca gente sabe.

Normalmente e de forma perfeitamente fundamentada, a nossa condição de praticantes do Mal é sinonimo de deboche, libertinagem e de boémia. Essa é na verdade, uma forma de atrair as almas ávidas de algo mais do que uma entediante eternidade no paraíso.
Querem diversão, bebida e prazeres sem limite? Juntem-se a nós! Vendam a alma a Satanás e tudo vos será concedido em troca de alguns pequenos favores (escritos em letras pequeninas do outro lado da folha).

Mas esquecemo-nos por vezes que o trabalho do Demo acarreta levar a cabo todo o tipo de tarefas que nos são destinadas e que estas nem sempre são de todo agradáveis. Os tempos de hoje são um bom exemplo de como as coisas já foram melhores para nós!
Se não, olhemos para as nossas tarefas terrenas actuais e ponderemos. Não é imediato como conseguir espalhar a discórdia, o ódio, subverter mentes, arrecadar almas perdidas, destruir valores, apenas com o recurso a uma cadeira, uma secretaria e um portátil com ligação à Internet!

Longe vão os tempos em que actos de violência infundada e arbitrária podiam ser utilizada sem levantar grande alarido (apenas da vitima claro), em que podíamos simplesmente instigar toda uma nação a agir violentamente contra outra sem que isso fosse visto como algo estranho e a evitar. Recordo-me que essa técnica foi apelidada de conquistas e de expansão territorial.

Bons exemplos são os descobrimentos e as conquistas levados a cabo pelos portugueses no sec. XVI.
Apesar de tal não ser devidamente reconhecido, sabemos bem identificar o trabalho dos nossos, nesses tempos, quando confrontados com as evidências.

Nisso reparei, quando recentemente li uma obra literária (ofertada por si amigo Maléfico) denominada “Homens, Espadas e Tomates” de um tal de Rainer Daehnhardt.
Neste livro, o autor compilou uma série de relatos referentes a eventos ocorridos durante os descobrimentos portugueses. Na sua totalidade descrevem personagens e situações bélicas que seriam simultaneamente heróicos e estúpidos, se acreditassemos que fossem executados por vulgares seres humanos, coisa que o nosso olhar atento rapidamente desmistifica.
É por demais imediato a presença do dedo (e nalguns casos a pata toda) do nosso brilhante Mestre na congeminação de tais episódios.
Para que melhor entendam, passo a indicar alguns exemplos de tão fabulosas histórias que se reportam a confrontos entre os referidos portugueses vs mouros e turcos, tanto em batalhas terrestres como marítimas:

Lopo Barriga, o papão português
Um português zangado
Dois portugueses numa nau cheia de turcos
120 contra 50.000
Trinta para cada um
Desafiou um exercito por causa de um capacete
Voluntários para se meterem no inferno
Ficar sem um braço não é o fim da peleja
Quantos ferimentos aguenta um português?
Não tendo bala, arrancou um dente, carregou o mosquete e disparou

Aconselho aos prezados colegas a leitura de tal obra, onde nos podemos inspirar nestes exemplos de lutas, em que o mote é basicamente em como um pequeno grupo mal armado e já em situação desesperada, enfrenta um poderoso inimigo e leva a sua por diante, normalmente infligindo enormes perdas no adversário atónito e por fim conformado com a natureza sobre-humana destes demónios portugueses.

\m/afarrico

terça-feira, 3 de junho de 2008

Uma ovelha negra tresmalhada

colegas,

venho aqui chamar a atenção para a triste história de um outro colega nosso, o Anung un Rama (nung para os amigos).

Anung un Rama teve uma infância igual a tantas outras, nada faria prever que a sua vida se tornaria um drama tão injusto quanto triste.

Ele é um colega demónio que foi invocado para este planeta pelo nosso servo terrestre Rasputin ajudado por outros colegas que militavam nas hostes ocultistas nazis (isto passou-se por alturas da segunda guerra mundial). Posto nesta Terra de forma tão carinhosa por aqueles que se queriam servir dele para baixar as trevas e convocar os deuses tormentosos de passados gloriosos para de novo a reinar sobre este sitio, heis que! foi "resgatado" pelas forças aliadas. Pois é , foi brutalmente retirado dos braços daqueles que eram por direito os seus "pais" neste mundo.

Foi levado para os USA, onde é actualmente explorado no Bureau for Paranormal Research and Defense (BPRD). Ele cresceu, sem conhecer as suas origens demoniacas e é agora um enorme demónio enorme e de cor vermelha, com cauda e cornos e uma mão direita de grandes dimensões que ele usa como se uma arma se tratasse. Foi , muito pouco originalmente, baptizado de Hellboy e é infamemente utilizado para lutar contra as nossas forças, está a ser brutalmente enganado e a destruir precisamente aqueles que são sua familia e a negar muitos dos nossos esforços para este planeta.

Como se não bastasse toda esta exploração, ainda se adiciona o facto de desde 1993 Mike Mignola desenhar uma banda desenhada espetacular, que não fora os bons ganharem sempre (com a ajuda do nosso confuso colega) seria uma leitura obrigatória. As histórias estão bem assentes no género terror-oculto satisfatório, o estilo de desenho é muito bom (muito bom mesmo) e tem acção e porrada q.b. . Até já fizeram um filme disto (assim-assim) e vem ai a sequela (medo).

Meus amigos, deveríamos resgatar o nosso colega das garras desses seres do bem que o usurpam desta forma mesquinha e infame. Atentem ao olhar perdido deste que deveria ter a mesma missão que nós e não o contrário.

M.P.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Trio infernal

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.

É só isto, e nada mais."
e etecetera e tal. Todos conhecemos esta tradução de referência, e todos a sabemos de cor. Sendo de bom tom chamar a atenção para ela quando passa aproximadamente uma hora que escrevi na masmorra um excerto do poema original.

Pessoa, que fez a tradução, é por muitos considerado o maior escritor de língua portuguesa de todos os tempos, pela qualidade da sua escrita, pela profundidade dos sentimentos que imprime nos seus escritos, mas também e principalmente por ter sido a primeira pessoa a arranjar a palavra "umbrais" para rimar com "mais" e com "jamais", permitindo assim a tradução do poema de Poe.

Claro que Pessoa militava nas nossas hostes infernais, tendo o seu encontro com Aleister Crowley em Lisboa feito correr muita tinta. Tanta que o Sr. Ozzy Osbourne teve a ideia de fazer uma música sobre o nosso conterrâneo ao ler a noticia sobre o encontro num jornal da época. Quando lhe disseram que o poeta português era o "Mr. Pessoa" ela achou que o nome não ficava bem e era um pouco redundante pelo que terá dito "Fuck! Faço uma música sobre o outro".



M.P.

Olha o passarinho!

Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore,
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at my chamber door.
"'Tis some visitor," I muttered, "tapping at my chamber door —
Only this, and nothing more."

And so on and so on .... É uma obra de referência, todos a sabemos de cor. Acho que é meu dever chamar a atenção para ela no dia em que passam aproximadamente 159 anos, 4 meses e 14 dias da morte do autor.

A sua obra é extensa e fica marcada principalmente pelas fortes influências retiradas da N.W.O.B.H.M . Sabe-se que o autor era um ávido fã deste género de musica e que muita da sua inclinação para temas mais lúgubres e melancólicos se deve ao facto de as suas bandas preferidas teimarem em não fazer digressão nos US of A.



Voltarei a este tema na próxima efeméride digna de nota, relacionada com este ou com outro qualquer escritor,
M.P.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

O mistério de Ugolino

mafarrico,

Dante nas suas deambulações pelo nosso lar cruzou-se com várias personagens (que nós, na maioria, conhecemos de vista), entre elas encontra-se Ugolino de Pisa encarcerado no circulo nove, circulo destinado aos traidores. O homem está congelado nos gelos do Inferno, só com a cabeça de fora e roendo a caveira de Ruggieri que fora o Arcebispo de Pisa.

Parece que em vida, não morriam de amores um pelo outro.

Em tempos idos, antes da morte de ambos, Ruggieri teria razões de queixa de Ugolino e , tendo poderes para isso encarcerou-o mais os quatro filhos na Torre da Fome onde os deixou até sucumbirem à ... fome.

Em conversa com Dante, Ugolino conta como ao fim de uns dias na dita torre e após pesadelos terríveis começa a enlouquecer e a morder as próprias mãos. Os filhos pensado que o seu pai tinham fome ainda lhe disseram :
... tu ne vestisti queste miseri carni, e tu le spoglia (Inferno, XXXIII, 62-63)
Ele não liga muito a isso, e ao quinto e sexto dia vê-os morrer (presumivelmente uns de cada vez e não todos ao mesmo tempo). No dia seguinte Ugolino fica cego e apalpa os corpos dos filhos falando com eles. Um terror imaginável.

É então que é proferida a frase que até hoje não está bem clarificada e que tem sido objecto de debate por pensadores através dos tempos. Diz Ugolino
"Poscia, piú che'l dolor, potè il digiuno."


É claro que eu nunca li Dante, aquilo pode ser porreiro mas é em verso e é grande à brava e eu não estou para ai virado. No entanto, tenho na minha posse um livro escrito pelo génio Jorge Luis Borges intitulado "Nove Ensaios Dantescos" que é a compilação de nove pontos de vista de Borges sobre nove passagens do livro de Dante e mais um prólogo interessante.

É mais um livro que nos convém porque assim com pouco esforço podemos passar a ilusão que lemos esta obra maior que todos conhecem ... de nome. Pode dar bom aspecto, depende da situação.

Finalizo com a convicção que se esta minha referencia literária tiver tanto sucesso como as outras me pedirá o livro emprestado por alturas do primeiro equinócio do próximo milénio, e então terei muito gosto em o deixar passar os olhos pela capa.

M.P.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

ref. literária 80 - o príncipe

mafarrico,

passado os festejos, voltemos ao conhaque. Porque a vida não é só trabalho como é costume dizer-se.

Estava eu sentado no sofázito do canto da sala de estar da Masmorra, olhar fixo numa mancha branca na parede, quando pensei "Tenho de ir ali sujar aquilo, afinal nem tenho nada melhor para fazer." Nisto ouço a voz do nosso Líder a materializar-se na minha cabeça.

AI NÃO TENS NADA MELHOR PARA FAZER? ENTÃO PEGA LÁ ....



E puuuuuuuuuf , cheiro a enxofre, um pouco de fumo (cof cof) e tinha no meu colo o mais recente tomo desse volumoso livro que é "O Príncipe" de Maquiavél. É um livro prodigioso, escrito no ano de 1513 e que até hoje é sinónimo de perfídia e golpes baixos, falsidade e deslealdade. E mais importante vitória! É realmente impressionante a maneira como o nome do autor ficou sinónimo de alguns dos mais altos valores que seguimos nesta Masmorra.

Dito isto, é fácil perceber que é um óptimo livro para se ter na mesinha de cabeçeira, tanto mais que esta edição que tenho é acrescentada de notas na margem do nosso colega Napoleão que nos vai brindando com uns aprazíveis comentários do estilo : "Não me esqueçerei disto ao lidar com meus antagonistas" em algumas passagens particularmente desprezíveis. Muito bom para impressionar visitas ao dar a entender que se o leu.

Finalmente, a minha opinião pessoal sobre o livro é que ele é intragável, tanto metafórica como literalmente. Experimentei as duas coisas e não dá mesmo.

Abraços literário-patéticos
M.P.

sábado, 1 de março de 2008

ref. literária 174 - the call of Cthulhu

mafarrico,

chegou a hora para mais uma ref. literária, depois de a minha anterior referência ter dado o mote para o surgimento de, nem mais nem menos, mais nenhuma. Resultados destes dão-nos alento!

Penso que já conhece a obra do nosso querido e desaparecido colega H.P. Lovecraft. É uma obra extensa, não tendo muitos trabalhos, e que pode ser lida em poucos dias, anos até. Hoje lembrei-me de um simples conto, que na altura em que o li me encheu de respeito pelos Antigos. O conto é intitulado "The Call Of Cthulhu" e é uma bonita história que conta o reaparecimento no nosso planeta de um dos nossos mais antigos aliados. "Mito", "Ficção" , chamaram-lhe os incrédulos, nós sabemos que não é bem assim e que, não fosse o estilo um pouco romanceado do nobre escritor, o seu trabalho poderia facilmente ser rotulado como : 'Documentário' .

Ambos conhecemos livros do referido autor, não sendo, portanto, necessária uma explanação da totalidade da obra. Pretendo simplesmente chamar a atenção para estes escritos e, se possível, iniciar uma animada tertúlia literária. Para esse efeito lanço dois pontos :

1º ponto - em jeito de curiosidade, chamo a atenção no referido texto, para a importância de um nosso conterrâneo para a libertação do nosso querido colega dos abismos. "It was Rodriguez the Portuguese who climbed up the the foot of the monolith and shouted of what he had found". O nosso país sempre foi pródigo em heróis esquecidos! Neste caso também ajudou que a sua descoberta levasse a uma rápida (mas não indolor) morte, poucos minutos passados.

2º ponto - o estilo de escrita do nosso colega. Acusado na época de ser antiquado, penso ser notória a influência do nosso próprio estilo na obra do senhor Lovecraft. Estou em crer que Lovecraft seria um rapazinho como todos os outros, mas um dia, ao navegar na net e tropeçando na M.I., fez-se escuridão!, e decidiu tornar-se escritor. Sendo medíocre, e não conseguindo sulcar o seu próprio estilo apoderou-se do nosso. Devemos encarar este facto com a serenidade, a sobranceria e a humildade de quem tem na ideia que é melhor que todos os outros.

"Poor Johansen's handwritting almost gave out when he wrote of this. Of the six men who never reached the ship, he thinks two perished of pure fright in that accursed instant. The Thing cannot be described - there is no language for such abysms of shrieking and immemorial lunacy, such eldritch contradictions of all matter, force, and cosmic order. A mountain walked or stumbled. God! What wonder that across the earth a great architect went mad, and poor Wilcox raved with fever in that telephatic instant?"


cumprimentos lovecraftianos,
M.P.